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A máxima de Karl Rahner, segundo a qual “o cristão do futuro, ou será místico ou não será cristão”, continua valendo para os nossos dias. Aliás, nada mais urgente em uma sociedade tão marcada pelo barulho, a pressa, a angústia e o profundo desejo de reconhecimento.

O padre Tiago Alberione percebeu, desde cedo, a necessidade e a urgência de se cultivar uma vida espiritual profunda e elevada. Ele sabia, contudo, que para alcançar essa proeza, eram necessárias pelo menos três atitudes: dedicar tempo à oração, aprender a lidar com o sofrimento nutrir convicções claras.

Quanto tempo dedicamos à oração?Ninguém se torna místico sem disciplina interior. O padre Alberione estava convicto disso. Para ele, mais importante que realizar grandes projetos é colocar Deus em primeiro lugar. Neste sentido, se a oração não antecede o apostolado, toda a comunicação torna-se vazia e superficial. Afinal, pode alguém comunicar Deus aos outros quando não recorre à sua intimidade?

A mística de Alberione, por assim dizer, é marcada pela cotidianidade e tem raízes na compaixão pela dor do mundo. Por isso, ele diz: “Pela fé vemos todos como pessoas, às quais somos devedores da verdade, da edificação e da oração. Pela fé vemos como Jesus Cristo amou a todos, com preferência aos mais necessitados, aos pecadores, aos que sofrem”.

Como lidamos com o sofrimento? O primeiro passo para se criar intimidade com o Mestre é reconhecer a própria finitude. Em outras palavras, aquele que reconhece suas fragilidades, limites e “insuficiência” diante de Deus está apto a percorrer o caminho vida espiritual. No dizer do próprio padre Alberione, “saber sofrer é verdadeira arte, aliás, a arte mais importante da vida. É preciso aprendê-la e praticá-la”. 

A pequenez e a humildade abrem-nos as portas para a vida mística e capacitam-nos para lidar com os sofrimentos e contrariedades da vida. Assim, Alberione reconhece que, “é missão reservada a pessoas selecionadas manifestar, até mesmo no sofrimento, um cristianismo e uma vida segundo Deus, como fonte de alegria”.

Somos protagonistas de nossas escolhas?Em mundo marcado pela efemeridade e as muitas opções de vida precisamos estar cientes de nossas próprias convicções e, inclusive, do caminho que desejamos trilhar. Esta, no entanto, nunca foi uma tarefa fácil. Além da oração incessante e da escuta interior, a busca exige constância e discernimento. 

Alberione desejava comunicadores audazes para sua missão. Para tanto, sempre os alertava para os riscos de ‘ser mais um’ no fluxo da multidão: “É necessário orientar a todos para agir à luz da consciência, por convicção, na presença de Deus. É necessário formar pessoas de personalidade forte e decidida, fundada sobre convicções profundas e capazes de concretizar essas convicções”. 

O exemplo do fundador da Família Paulina nos leva a crer que, quanto maior a nossa intimidade com o Pai, maior a capacidade de lidar com a dor e o sofrimento. Quanto mais profícua a nossa espiritualidade, mais sólidas e profundas serão as nossas convicções diante da vida.

 

*Francisco Galvão é junior da Província Brasil.